1 de ago de 2011

A estrutura das penas

As linhagens

Os periquitos ondulados australianos fazem parte de duas linhagens: a verde, que inclui os amarelos, e a azul, que inclui os brancos. E, então, de onde vêm tantas variações? Acontece que todos eles são o resultado de mutações sobre as cores principais, promovidas basicamente pela melanina, que se divide em eumelanina (pigmento preto) e phaeomelanina (pigmento castanho) e psittacina (pigmento amarelo). A partir daí, fica fácil concluir que os periquitos australianos da linhagem verde produzem pigmento amarelo, enquanto que os da linhagem azul não. Por isso, as aves de corpo verde apresentam a face amarela visto que nesta área, apenas se observa a produção do pigmento amarelo. Do mesmo modo, as aves de corpo azul apresentam a face sem qualquer pigmento, ou seja, branca. Logo as aves da linhagem verde serão totalmente amarelas se não produzirem melanina e verdes se produzirem, e as aves da linhagem azul serão totalmente brancas se não produzirem melaninas e azuis se produzirem. Além disso, a presença das melaninas nas penas das asas confere ainda aos periquitos ondulados australianos as marcas negras com aspecto ondulado (daí o nome Melopsittacus undulatus). Mas se os periquitos ondulados australianos não produzem pigmentos verde ou azul, porque, então, eles apresentam basicamente essas duas cores? Para responder essa pergunta é preciso saber que existem outros dois mecanismos que também influenciam na determinação da cor: a estrutura das penas e a incidência de luz sobre elas.

A estrutura das penas

As penas são estruturas mortas, de queratina*, originadas a partir de papilas vivas da derme (origem mesodérmica). As penas das aves são formadas de:
Cálamo – ponta oca que fica enterrada na pele da ave.
Raque – parte central do “eixo da pena”.
Barbas – “raminhos” das penas, que estão presos à raque.
Bárbulas – minúsculas ramificações das barbas.
De acordo com a função, as penas são denominadas de rêmiges (penas longas das asas), retrizes (penas longas da cauda), tetrizes (penas de revestimento do corpo, com plumas junto ao cálamo) e plumas/plúmulas/filoplúmulas (penas isolantes térmicas que ficam abaixo das tetrizes).
Remiges
Retrizes
Tetrizes
Plumas
E agora que você já conhece um pouco da estrutura das penas, saiba que é exatamente no centro das barbas (vexilo) que se encontram minúsculos grãos de melanina e que ao redor desses grânulos existem duas camadas: uma que contém o pigmento amarelo (em periquitos ondulados australianos da linhagem verde) e outra mais interna, responsável pela dispersão da luz, que pode variar na espessura, determinando assim a tonalidade da cor – mais estreita ou com a melanina mais próxima da superfície = tom mais escuro (malva, p. ex.) e mais larga ou com a melanina mais distante da superfície = tom mais claro (celeste, p. ex.).

A incidência de luz sobre as penas

Você sabe que a luz branca é na verdade uma composição de várias cores. É importante também saber que as cores possuem comprimentos diferentes, ou seja, são como ondas de rádio com alcances diferentes, sendo percebidas somente em faixas distintas. Por exemplo, penetrando em um prisma, os raios luminosos desviam em ângulos diferentes para cada comprimento, gerando o fenômeno do espectro de cores. Na verdade a diferença de cores na natureza não é mais do que a capacidade que tudo ao nosso redor tem de separar as cores. É o fenômeno de absorção e refração da luz. Enquanto algumas ondas penetram, sendo absorvidas, outras são rejeitadas. Assim, ocorre a separação e a diferenciação das cores. As cores pertencem à luz, que retorna aos nossos olhos. Portanto, podemos concluir que não há cor nas coisas, mas sim na luz. Então, imagine agora a luz incidindo nas penas. Ela passa pela camada mais externa, onde há o pigmento amarelo e atinge o centro da barba, onde estão os grânulos de melanina. Como vimos, as cores possuem comprimentos de ondas diferentes, mas os grânulos de melanina têm um único tamanho. Assim, ondas grandes passam pelos grãos de melanina, exatamente porque são muito pequenos, enquanto que as ondas menores se chocam com eles e são refletidas. É o caso da cor azul, que possui um comprimento de onda menor do que os grânulos de melanina. Ao ser refletida, ela fará o mesmo caminho de volta, ou seja, passará novamente pela camada que contém o pigmento amarelo. Essa ação criará uma ilusão de ótica, como quando misturamos tintas nas cores azul e amarelo, originando o verde. Desse modo, podemos concluir que os periquitos ondulados australianos da linhagem verde, assim como a grande maioria das aves de mesma cor não são verdes, mas sim o resultado da luz azul refletida em um fundo amarelo. No caso dos periquitos ondulados australianos azuis, a luz azul não passará pelo pigmento amarelo, pois como vimos eles não possuem esse pigmento, dando lugar à cor branca. Por isso, podemos dizer que um periquito ondulado australiano azul é um exemplar verde sem o pigmento amarelo. Essa diferença entre as duas cores ocorre em virtude de uma alteração genética ou uma mutação, que altera a produção do pigmento amarelo. Pense em 2 genes atuando. Um deles elimina o pigmento amarelo e o outro altera a espessura da camada responsável pela dispersão da luz. O lutino (ou totalmente amarelo) é um periquito sem melanina, ou seja, não absorve as radiações luminosas, não refletindo, assim, a cor azul. Então, sem a cor azul para se misturar à cor amarela, o que enxergamos? Somente o fundo, ou seja, a cor amarela. Agora imagine um periquito sem melanina e também sem o pigmento amarelo. O que sobra? Um fundo inteiramente branco ou um periquito albino.
Assim, concluímos que as cores das penas dos periquitos  estão associadas à sua estrutura física, à natureza e distribuição dos pigmentos e a diversos fatores genéticos que podem:
Alterar a coloração pela modificação da estrutura das células das penas;
Reduzir a quantidade ou suprimir um dos pigmentos por impedimento de sua formação;
Modificar a natureza da distribuição de pigmento.
Mas e o periquito violeta? Para entender essa cor é preciso saber que a luz violeta possui um comprimento de onda inferior à luz azul; que, além disso, nos exemplares dessa cor os grânulos de melanina são menores; e que a melanina é amarronzada e não negra. A cor violeta só é percebida nos exemplares azul cobalto. Em outras cores funcionará apenas como fator de escurecimento. Por exemplo, um periquito verde claro com fator violeta será verde escuro. Já o periquito cinza, assim como o verde-cinza possuem essa coloração em virtude de um gene que altera a estrutura física das barbas das penas, impedindo que a luz azul se disperse. Quando associado ao fundo amarelo, o cinza se torna verde-cinza.

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