11 de jul de 2011

SELEÇĂO DE EXEMPLARES NA CANARICULTURA

SELEÇĂO DE EXEMPLARES NA CANARICULTURA
 Rafael Cuevas Martinez
Juiz de canários de cor/FOCDE
Artigo extraído e traduzido do site da FOA
Federación Ornitológica Andaluza
Revista ABC 2006

 
Conceitos e generalidades
            O terno seleçăo aplicado a canaricultura significa a escolha de alguns canários entre um grupo, dando preferęncia a estes.
            O homem vem selecionando canários há mais de 500 anos. Além desta seleçăo artificial, o canário doméstico, como todas as espécies, tem sido submetido ŕ influęncia da seleçăo natural, tanto de forma parcial devido ŕ vida em cativeiro e por algumas mutaçőes (canários brancos ou enfermos, por exemplo) que em estado silvestre desapareceriam, a qual tem suas vantagens, mas também seus inconvenientes.
            A seleçăo natural determina que os indivíduos de uma espécie melhores adaptados ao meio sobrevivam e transmitam suas características ŕ geraçăo seguinte.
            A seleçăo artificial é eficaz para se trocar os fenótipos nas populaçőes animais e vegetais. Desta maneira, vem se conseguindo, por exemplo, vacas com maior produçăo de leite, galinhas com maior postura e maior tamanho do ovo, vegetais mais resistentes ŕ pragas, etc.
            A seleçăo (natural e artificial), juntamente com a mutaçăo, hibridaçăo, crossing-over e cruzamentos adequados vem dando origem a numerosas raças e variedades de canários de cor, canto e porte que conhecemos atualmente.
            A reproduçăo sexual por meio de intercâmbio genético, separaçăo dos pares de cromossomos homólogos e sua distribuiçăo aleatória nos gametas – processos que  ocorrem durante a meiose durante a formaçăo dos gametas – assim como as múltiplas combinaçőes genéticas que se podem dar pelo encontro dos gametas mediante a fecundaçăo, além das mutaçőes, constitui uma importante fonte de variabilidade genética, sobre a qual tanto atuarăo a seleçăo natural como a seleçăo artificial – determinada fundamentalmente por um critério de beleza proposto pelo homem – proporcionando a evoluçăo do canário. A seleçăo depende da variabilidade genética, e a sua atuaçăo reduz a “sorte” da variabilidade.
            No momento de seleçăo dos exemplares devemos ter muito claro que características săo transmissíveis pela descendęncia, as quais se devem ao efeito ambiental e o grau de influęncia que o ambiente exerce na expressăo de determinadas características. A hereditariedade faz referęncia ŕ proporçăo de variaçăo fenotípica de uma característica devida ŕ herança e năo a fatores ambientais. A hereditariedade pode ser alta, média e baixa. Seus valores oscilam entre 0 e 1. É muito importante conhecer a hereditariedade de cada característica que pretendemos selecionar, já que em funçăo da hereditariedade de cada característica, obteremos uma pior reposta mediante ŕ seleçăo; se a hereditariedade é baixa, ao selecionar os melhores fenótipos, é possível que năo elejamos os melhores genes, que poderiam estar “mascarados” pelo efeito do meio ambiente.
            As características devidas a uma herança poligęnica ou quantitativas, como o fator de refraçăo, tamanho, expressăo da categoria, săo muito mais difíceis de selecionar e melhorar do que as devidas ŕ uma herança de tipo mendeliano 1, devido a que intervem numerosos pares de genes (poligenes) e o meio ambiente tem maior influęncia.
            A seleçăo produz uma variaçăo nas freqüęncias genotípicas2 e fenotípicas3 de uma geraçăo ŕ outra, diminuindo a freqüęncia de alguns genes e aumentando a de outros.
 Objetivos da seleçăo
            Por meio da seleçăo e com o passar do tempo, eliminaremos de nosso criador aqueles canários com características morfológicas, funcionais ou fisiológicas, sanitárias, de comportamento, etc., năo desejados e com isto suprimiremos os genes responsáveis pela apariçăo de tais fenótipos. Devemos priorizar a seleçăo pela saúde ŕ qualquer outro tipo de seleçăo, o que nos trará muitas recompensas. É muito conveniente, na medida do possível, levar a cabo uma seleçăo integral ou total, ou seja, aquela que considera numerosos aspectos do exemplar e năo exclusivamente as características sujeitas ŕ avaliaçăo em concursos.
            Com a seleçăo conseguiremos os seguintes benefícios:
            Prevençăo de enfermidades hereditárias;
            Melhora da fertilidade e criaçăo;
            Maior resistęncia ŕ infecçőes;
            Eliminaçăo de malformaçőes, quistos, etc;
            Exemplares mais saudáveis e robustos;
            Homogeneidade nas características dos exemplares de nosso criador;
            Maior produtividade;
            Melhora genotípica e fenotípica na cor, tamanho, forma, canto e todas as características que desejamos ŕ seleçăo;
            Realizaçăo da muda com mais facilidade.
            Todos estes benefícios farăo com que o criador se sinta satisfeito com sua atividade ao obter uma melhora na qualidade dos exemplares, o que, sem dúvida, repercutirá nas pontuaçőes destes em concursos e nos resultados da próxima temporada da criaçăo.
 Tipos de exemplares a selecionar
            Podemos selecionar exemplares para a reproduçăo (seleçăo de reprodutores), ou bem para fins de competiçăo (seleçăo de exemplares para concursos – exposiçőes).
 Seleçăo de reprodutores
            A seleçăo de reprodutores é fundamental e constitui o primeiro passo para conseguir a melhora genética em uma ou várias características no grupo ou grupos de canários que criamos. Para que se colha todos seus frutos, a seleçăo deve posteriormente complementar-se com adequados cruzamentos, baseados em um conhecimento genético básico aplicado a canaricultura, seja de canto, de cor, etc.
 Seleçăo de exemplares para concursos-exposiçőes
            A seleçăo de exemplares com fins expositivos difere em alguns aspectos com respeito ŕ seleçăo de reprodutores, apresentando as seguintes peculiaridades:
            1-Somente serăo selecionados os exemplares no vos (filhotes);
            2-Năo se poderăo selecionar exemplares, que podem ser selecionados como reprodutores, mas que lhes falte uma unha ou plumagem, por exemplo, ou que năo foram anilhados, etc.
            3-Deveremos selecionar os exemplares que por seu sexo, variedade ou categoria lhes de mais qualidade ŕ essa grama. Por exemplo, os machos tanto intensos como nevados, salvo exceçőes, săo melhores que as fęmeas. Em relaçăo ao tipo, variedade e categoria de que temos disponíveis, se selecionarăo os machos, as fęmeas ou ambos.
            A incorporaçăo do fator de refraçăo melhora, em geral, a qualidade do exemplar.
 Número de exemplares a selecionar
            A produçăo anual de exemplares (quantidade) favorece a melhora genética, já que indubitavelmente, quanto mais exemplares obtivermos, a probabilidade de que entre eles haja bons exemplares selecionados é direta. Quer dizer, se no lugar de obter 100 exemplares, com os mesmos casais obtivermos 150, é lógico que tiraremos um maior número de exemplares ótimos. Portanto, é muito importante que se tenha uma boa criaçăo, para isso devemos nos dedicar com todo esforço e tempo necessários.
            Para obter um número suficiente de exemplares de uma determinada variedade e poder selecionar-los, é conveniente, obviamente, ter um certo número de casais; em tal sentido recomendo o criador ŕ especializaçăo em uma(s) determinada(s) variedade(s). É muito importante partir de exemplares provenientes de uma linhagem de alta qualidade. Por uma maior qualidade de uma linhagem, o número de exemplares de descarte será menor, e vice-versa.
            Tenha claro quantos casais formará para a próxima temporada e deixe alguns exemplares de reserva, principalmente fęmeas.
            Fique com os exemplares que realmente valham a pena para concursos ou como reprodutores.
 Intensidade da seleçăo
            Deve-se dar atençăo que mediante a uma seleçăo muito intensa năo reduzamos excessivamente a variabilidade genética em nosso criadouro, o que dará lugar a uma maior consangüinidade, com efeitos negativos sobre a fertilidade, tamanho, etc.
            Com uma seleçăo muito rigorosa poderemos obter bons resultados de forma mais rápida, mas nos resultará numa dificuldade de manter-los por vários anos se a consangüinidade for muito elevada. Com uma seleçăo menos rigorosa levaremos mais tempo para conseguir bons resultados, mas nos manteremos durante muito tempo, já que a variabilidade genética é maior e, portanto por haver menor consangüinidade, năo aparecerăo, ou se aparecerem serăo em menor quantidade os efeitos negativos desta.
            É muito importante a homogeneidade da linhagem, dentro de uma certa variabilidade genética, mais do que dispor de vários exemplares de ótima qualidade com uma linha mais heterogęnea geneticamente.
            A intensidade da seleçăo diminui com o tempo, já que ŕ medida que passam as geraçőes, haverá uma maior porcentagem de indivíduos que manifestam estas características.
 Momento da seleçăo
            Podemos levar em consideraçăo a seleçăo em dois momentos diferentes:
            a)Após o final da criaçăo – Procederemos a eliminar aqueles reprodutores que tiveram maus resultados: machos estéreis, fęmeas com baixa taxa de postura, fęmeas que năo criam bem, que biquem os ovos ou os filhotes, casais nos quais morrem a maioria dos filhotes e exemplares que por sua idade năo é conveniente que criem na próxima temporada. Igualmente procederemos, dentro dos jovens, a eliminar aqueles pássaros lipocromicos com manchas melânicas, unha ou plumas brancas nos melânicos, malformaçőes, quistos, etc.
            b)Após o fim da muda de penas – Terminada a muda, o pássaro expressará o máximo de sua cor e outras características genéticas e será o momento adequado para proceder sua seleçăo. Se fará uma previa sexagem dos filhotes. Serăo eliminados os exemplares com muda defeituosa, pois isto é sinal de saúde delicada. Também poderemos optar por eliminar aqueles exemplares que nasceram muito tarde na temporada, pois é provável que no próximo ano năo criem.
 Seleçăo de exemplares de categoria mosaico
            Em relaçăo aos canários de categoria mosaico, em sua seleçăo deverá levar em conta a linha que seguimos em nosso criador (linha de macho ou linha de fęmeas), e que a seleçăo seja para reprodutores ou de exemplares para concurso, pois se seguimos a linha macho, as fęmeas mesmo que sejam selecionadas como reprodutoras, năo serăo aptas para concurso, pois terăo categoria defeituosa. Um exemplo similar, podemos apresentar com os machos mosaicos da linha fęmea, que pela mesma razăo anterior năo serăo aptos para concurso.
 Tipos e técnicas de seleçăo
            Previamente ŕ seleçăo dos exemplares se procederá uma valorizaçăo de todas as características a selecionar.
Para levar em consideraçăo a seleçăo é muito importante ter um bom registro de todos os exemplares, em que nele constem suas características, filiaçăo, defeitos e virtudes. Este registro poderá ser feito mediante um programa de computador.
Na seleçăo de exemplares deveremos ser objetivos e năo deixemos levar por sentimentalismo por determinados exemplares que poderiam prejudicar a seleçăo.
É indubitável que para selecionar uma determinada característica, seja de cor, canto ou postura, devemos conhecer a perfeiçăo das características ótimas da característica que pretendemos selecionar. O canaricultor está obrigado a ter um conhecimento detalhado e atualizado do padrăo dos tipos de canários ou outros pássaros que cria se quiser fazer uma boa seleçăo de seus exemplares.
Selecionar baseando-se exclusivamente no fenótipo de cada exemplar  isoladamente (seleçăo individual) é algo parcial, considerando a influencia do meio ambiente, especialmente em algumas características. É importante selecionar, por comparaçăo com o fenótipo dos exemplares parentes, que dizer, consangüíneos:
ascendentes, descendentes, irmăos, primos, etc, pois nos dará uma idéia mais aproximada da natureza dos genes deste exemplar, é o que se conhece por seleçăo familiar. Podemos efetuar este tipo de seleçăo baseando-nos em:
a) ascendentes (pais, avós, etc)
b) descendentes (filhos, netos, etc)
c) irmăos que é a mais freqüente na canaricultura. A seleçăo por descendentes permite calcular o valor genotípico do exemplar através da observaçăo do fenótipo da prole.
Ŕs vezes se pode realizar utilizando de forma combinada estas tręs opçőes, o que é indubitavelmente melhor, porém mais trabalhoso.
A seleçăo em nível familiar é mais confiável que a individual já que se efetua considerando um maior número de dados. A seleçăo familiar é necessária para selecionar algumas características, por exemplo, se queremos selecionar um canário macho pela produçăo de ovos, teremos que avaliar seu valor genético por seus familiares fęmeas, ou ao contrario, se queremos selecionar uma fęmea pelas características de canto, deveremos nos fixar em seus familiares machos. Naquelas características de baixa hereditariedade, a partir da observaçăo dos fenótipos de seus familiares, poderemos obter uma informaçăo mais detalhada.
Quando a seleçăo de um indivíduo se realiza exclusivamente em funçăo do valor de sua família, se fala em seleçăo familiar e se somente se considera o valor de um indivíduo em relaçăo a família se trata de uma seleçăo  intrafamiliar.
A seleçăo combinada considera conjuntamente a seleçăo familiar e intrafamiliar e é mais exata.
Poderemos levar em consideraçăo a seleçăo de forma isolada para cada uma das características, eliminando os indivíduos ou famílias que pior expressem estas características, ou considerando de forma combinada todas as características a selecionar e estabelecendo uma pontuaçăo em cada exemplar para cada característica.   Somaríamos todos esses valores parciais em um valor total e para cada exemplar conhecido (índice de seleçăo). Os métodos usados para construir o índice de seleçăo săo variados. Posteriormente aluaríamos selecionando os exemplares que apresentem um maior valor numérico no índice citado e eliminaríamos os exemplares mais mal pontuados para todas estas características, consideradas conjuntamente. A seleçăo raramente se utiliza raramente de uma só característica, mas sim para
várias ao mesmo tempo. Por menor número de características selecionadas se conseguirá uma maior qualidade nos mesmos que se o número de
características é maior, já que a precisăo de seleçăo neste último caso é menor.
Considero que a seleçăo isolada de características é menos rigorosa e mais sujeita a erros que a seleçăo combinada, já que podemos descartar um exemplar simplesmente porque uma só característica năo se expresse corretamente.
Se dispomos de uma variedade com várias linhas de criaçăo, mediante ŕ seleçăo, podemos atuar reduzindo o número de linhas ou de famílias dentro de uma mesma linha, por exemplo, tomaremos todos os exemplares de
cada uma das linhas e compararemos em grupos entre cada linha (seleçăo interlinha), elegendo as melhores, descartando os exemplares das piores linhas. Posteriormente atuaremos elegendo os melhores exemplares em cada linha (seleçăo intralinha) ou família selecionada.
Na medida do possível, teremos várias linhas, assim poderemos optar por reproduzir um maior número de exemplares das linhas de melhor qualidade.
A melhora de uma linhagem é uma questăo trabalhosa e em longo prazo, pouco a pouco.
Se selecionarmos uma determinada família e observarmos, năo obstante, que um exemplar se destaca na média na apresentaçăo de uma determinada característica, procederemos a elimina-lo. Quer dizer, deve-se eliminar, em todo momento, as expressőes extremas e defeituosas das características que selecionamos, sempre e quando estamos selecionando valores medianos e năo valores extremos, como ocorre em alguns tipos de seleçăo, como por exemplo, pelo tamanho. A seleçăo das características quantitativas como o tamanho, se pode realizar elegendo um dos valores extremos de apresentaçăo de certa característica (por excesso ou por defeito), ou elegendo os valores centrais ("recortar as pontas") em funçăo de que selecionaremos pássaros grandes, pequenos ou de tamanho normal.
 
GLOSSÁRIO:
1 - Mendeliano : quando nos referimos ŕs Leis de Mendel (referentes a tipos de hereditariedade de características genéticas)
2 - Genotípico : conjunto de caracteres genéticos que determinam o fenótipo de um indivíduo.
3 - Fenotípico : conjunto de caracteres físicos (por exemplo cor, desenho) que nos permite identificar indivíduos como pertencentes a um certo grupo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário